Se o amanhã fosse melhor…

9 mar

O mundinho dela era composto por certos problemas: uma discussão com amigos queridos aqui, uma inveja da prima acolá. Ela lidava com toda a dor que sentia sem soltar uma sílaba, sem desmoronar ou chorar na frente dos outros. Desabafava, é claro – há certas coisas que se você segurar por muito tempo acabam destruindo-te por dentro -, mas não dava espaço para ninguém compreender exatamente o que sentia. Era melhor assim.

O tempo passava e aos poucos a garota conseguia controlar seus sentimentos e não chorar mais toda noite nem se preocupar com aspectos que para os outros – e para ela, em seus momentos de lucidez – eram irrelevantes. Seus problemas seguiam um ciclo: consciência, aperto no peito, choro e aprender a controlar-se – até que um dia eles acabavam e davam espaço para novos problemas.

Um dia, tudo mudou.

Ela lidava com o afastamento de uma amiga e um amor não correspondido. A ausência da grande amiga estava cicatrizando e para o amor não correspondido ela se limitava a derramar apenas algumas lágrimas por noite. É, estava tudo bem. Foi apenas quando ela saiu de casa para cumprir certos deveres que mais um problema surgiu e acumulou-se aos que já tinha, deixando-a sem defesas e fazendo todo o seu desenvolvimento em lidar com as coisas regredir em um só instante.

De repente, o chefe que não dava a valor a ela tornou-se motivo de grande chateação – ela começou a importar-se com a injustiça que sofria, com o vagabundo sendo o melhor amigo do chefe e ela trabalhando feito uma mula e não tendo seu devido reconhecimento. Não conseguir terminar um livro por falta de tempo e disposição virou um bicho de sete cabeças, fazendo-a arrancar os cabelos e gritar na solidão de sua casa. Até a solidão em si, algo que ela prezava tanto ao considerar que era um bônus de sua independência, tornou-se sufocante e logo ela precisava estar em contato com todo e qualquer amigo, seja pessoalmente, por telefone ou internet. Ela passava dia após dia trancada em seu inferno pessoal.

A manhã, antes tão insignificante, transformou-se no horário em que ela mais vivia, pois os minutos passavam tão devagar para a moça que quando o meio-dia chegava parecia que havia passado um dia inteiro. A tarde era rápida demais para seu gosto, pois antecedia a noite. Ah, a noite, que conseguia ser pior – e olha que isso era bem difícil – que a manhã.

À noite, ela não podia mais esperar que o dia melhorasse, pois ele já estava em seu fim. À noite, os problemas evitados ao longo das vinte e três horas anteriores voltavam com toda a força; o coração apertava, a respiração tornava-se difícil, as lágrimas caíam sem parar e ela abraçava o travesseiro. Às vezes, fechava os olhos e imaginava que era ele quem ela abraçava, mas sua personalidade cética logo a obrigava a sacudir a cabeça e entender que ele nunca estaria ao seu lado. Nesse estágio, ela começava a chorar e, na tentativa de mudar a linha de seus pensamentos, lembrava da (ex) amiga.  Todas as burradas que fizera apresentavam-se como flashes em sua cabeça, cegando-a por segundos. Ela abraçava mais forte o travesseiro e soluçava, sacudindo a cabeça mais uma vez.

Aos poucos, o cansaço falava mais alto e ela respirava fundo, caindo em profundo sono. Enquanto sua mente desligava-se completamente do mundo real, ela esperava que o amanhã fosse melhor e até acreditava nisso – só que lá no fundo sabia que não era verdade.

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8 Respostas to “Se o amanhã fosse melhor…”

  1. Larissa França 09/03/2011 às 16:23 #

    Ai Mari, mais uma vez você nos seduz com um de seus contos…

    Você tem a capacidade de recriar as atmosfera em que vivemos, de transmitir com clareza e perfeição os sentimentos humanos.

    Devo confessar que me identifiquei inteiramente com boa parte do conto e que ao passo que lia, parecia correr minhas vistas por meu próprio diário.

    Parabéns minha pupila! Torço por sua carreira.

    • Mateus 11/03/2011 às 20:56 #

      Simplesmente me deixou sem palavras. Muito bom mesmo, parabéns ^^

  2. Gabriel Amaral 12/03/2011 às 2:04 #

    O conto consegue passar muito bem o sentimento de depressao e sofrimento. Consegue fazer o leitor até mesmo sentir uma certa solidao. Voce consegue realmente transmitir os sentimentos humanos sem ser superficial.

    Gosto muito do seu “jogo de palavras”, também. De modo que o mesmo tema é “repetido” em varios paragrafos sem que o leitor fique “exausto”. (Nao sei se consegui me expressar bem…)

    Adorei o ultimo paragrafo pois ele traz primeiro um sentimento de esperança, mas termina negando esse sentimento e voltando ao principio do conto.

    Parabéns, Marina!

  3. Bárbara 15/03/2011 às 22:28 #

    Posso colocá-lo nos meus favoritos também. Imagino como seria o mundo dela. E eu sempre gosto do fim dos seus textos. Não sei o porquê disso. Mas simplesmente gosto.

  4. Renato 21/03/2011 às 21:28 #

    Filha, eu amo isso aqui…

    bom, começando, que texto maravilhoso! Você consegue transmitir sentimentos para o texto de uma maneira incrível, como se o personagem fosse realmente vivo, palpável!

    É claro que deve ter tido uma experiência bem vivida para escrever algo assim, se entende o que estou falando 😉

    Mas que seja. Ficou lindo.

    E vê se dá um jeito nesse negócio de comentário, porque eu não conseguia ver onde eu colocava meu nome… é tudo branco.

    Bjos, papai te ama \o/

  5. Letícia Andrade (Lily) 21/03/2011 às 22:12 #

    Gente O.O

    Olha, eu posso dizer que sou CHATA com contos e pequenas histórias (inclua fanfics também no meio), mas confesso que, para a minha alegria eterna, você me surpreendeu. Ok, eu já tinha lido fics suas, mas ver os contos, os originais, mostram muito mais do seu talento e da sua capacidade. E acho que você traduziu bem o sentimento.

    Só achei que ficou confuso uma parte (é, eu sei, pode me bater depois). No começo, ela parece ser uma adolescente, e depois, parece já tão adulta. Mas ainda assim, são sentimentos bem colocados e concatenados, e creio que nada atrapalha a sensação que causa no leitor.

    E confesso: eu me identifiquei com a personagem. De verdade.

    Leitora assídua do blog agora XD Um dia você foi do Twilight Haters Brasil… agora eu vou retribuir o favor.

    Beijos, Mari!

  6. Daniel Souza 28/03/2011 às 16:41 #

    O ‘certo’ seria fazer um rodeio galante te galardoando à guisa de introdução, mas como eu quero que vc seja uma escritora madura em vez de uma retardada que fecha os ouvidos pra alguém, vou pro ponto. É o pior dos seus. E é o pior porque não tem direção, não tem unidade, não fala nada, é um recorte que não se firma sem biografia, sem personagem, sem algo maior. E se fosse esteticamente agradável como os outros textos, se tivesse essa sede experimentalista, haveria o que elogiar.

    A instrospecção dos seus textos me agrada, mas só a partir do momento que ela tem objetivo, forma e concisão. Em suma, é um texto de diário, diferente dos outros, que o transcendem em universalidade, concepção e técnica.

    E aumenta o número de linhas. u.u
    Não que eu tenha o direito de cobrar isso, mas se você metaforizasse mais, desenvolvesse mais e narrasse mais eu ficaria feliz =DDD

    • Marina Anderi 18/05/2011 às 14:54 #

      Obrigada pelo comentário, Dan, e trabalharei nisso.

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