Espelho, Espelho Meu

10 jun

Olha no espelho, conta até dez e diz:

– Eu te amo.

Respira fundo, conta até dez e diz:

– Eu te amo.

Com mais confiança, voz mais alta, diz:

– Eu te amo.

Ela se dizia pronta para pronunciar estas três palavras – e certos acréscimos ainda não definidos no discurso – após tantos dias de treino intensivo. Também, mesmo se não estivesse, teria de tentar; já passara da hora de tentar. O garoto que procurava estava conversando com umas duas pessoas, sentado nas escadas que davam acesso ao segundo andar do colégio. Em minutos ele saberia a verdade, só mais alguns minutos…

Andou a passos firmes até ele, os olhos fitando apenas seu rosto. O olhar determinado disfarçava seu nervosismo e ela secava na calça as mãos que suavam. Não era uma decisão fácil, tampouco rápida de se tomar, mas aquilo era o certo a se fazer.

– Oi – ela disse.

– Olá – respondeu ele com um sorriso bonito o suficiente para fazer o coração dela acelerar.

– Você pode… Você pode vir comigo um instante? Preciso falar com você.

Ele assentiu e despediu-se dos amigos. Ela pegou na mão dele, hesitante, rezando para que ele não notasse o quanto tremia. Quando entraram numa sala vazia, ela se virou para encará-lo sem soltar sua mão no processo.

– O que estou para dizer não é algo que você simplesmente diz. Não deveria ser fácil, afinal. Há muitas coisas acontecendo na minha vida agora, mas por alguma boba razão eu não consigo parar de pensar em você. Eu penso muito em você.

“Eu não espero que você confesse seu eterno amor por mim ou algo do tipo. Quer dizer, antes de vir aqui eu já me preparei para o pior.”

Houve uma pausa. Ele estava imóvel, olhando para algo atrás dela. Ela respirou fundo e terminou seu pensamento:

– Aqui vai: eu te amo.

Ele estava esperando por isso – ele deveria estar esperando por isso -, mas de qualquer forma ele abriu e fechou sua boca algumas vezes, tentando dizer palavras que ele sabia que não sentia.

– Não faça isso – ela disse. – Eu acho que – eu sei que você não me ama; basicamente, você nem sequer gosta de mim! Portanto apenas… apenas não faça isso.

Ela andou até a porta, olhou para ele uma última vez e saiu correndo.

Olha no espelho (ignora seus olhos vermelhos, a maquiagem borrada e o cabelo bagunçado), conta até mil e diz:

– Eu… eu ainda te amo.

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Se o amanhã fosse melhor…

9 mar

O mundinho dela era composto por certos problemas: uma discussão com amigos queridos aqui, uma inveja da prima acolá. Ela lidava com toda a dor que sentia sem soltar uma sílaba, sem desmoronar ou chorar na frente dos outros. Desabafava, é claro – há certas coisas que se você segurar por muito tempo acabam destruindo-te por dentro -, mas não dava espaço para ninguém compreender exatamente o que sentia. Era melhor assim.

O tempo passava e aos poucos a garota conseguia controlar seus sentimentos e não chorar mais toda noite nem se preocupar com aspectos que para os outros – e para ela, em seus momentos de lucidez – eram irrelevantes. Seus problemas seguiam um ciclo: consciência, aperto no peito, choro e aprender a controlar-se – até que um dia eles acabavam e davam espaço para novos problemas.

Um dia, tudo mudou.

Ela lidava com o afastamento de uma amiga e um amor não correspondido. A ausência da grande amiga estava cicatrizando e para o amor não correspondido ela se limitava a derramar apenas algumas lágrimas por noite. É, estava tudo bem. Foi apenas quando ela saiu de casa para cumprir certos deveres que mais um problema surgiu e acumulou-se aos que já tinha, deixando-a sem defesas e fazendo todo o seu desenvolvimento em lidar com as coisas regredir em um só instante.

De repente, o chefe que não dava a valor a ela tornou-se motivo de grande chateação – ela começou a importar-se com a injustiça que sofria, com o vagabundo sendo o melhor amigo do chefe e ela trabalhando feito uma mula e não tendo seu devido reconhecimento. Não conseguir terminar um livro por falta de tempo e disposição virou um bicho de sete cabeças, fazendo-a arrancar os cabelos e gritar na solidão de sua casa. Até a solidão em si, algo que ela prezava tanto ao considerar que era um bônus de sua independência, tornou-se sufocante e logo ela precisava estar em contato com todo e qualquer amigo, seja pessoalmente, por telefone ou internet. Ela passava dia após dia trancada em seu inferno pessoal.

A manhã, antes tão insignificante, transformou-se no horário em que ela mais vivia, pois os minutos passavam tão devagar para a moça que quando o meio-dia chegava parecia que havia passado um dia inteiro. A tarde era rápida demais para seu gosto, pois antecedia a noite. Ah, a noite, que conseguia ser pior – e olha que isso era bem difícil – que a manhã.

À noite, ela não podia mais esperar que o dia melhorasse, pois ele já estava em seu fim. À noite, os problemas evitados ao longo das vinte e três horas anteriores voltavam com toda a força; o coração apertava, a respiração tornava-se difícil, as lágrimas caíam sem parar e ela abraçava o travesseiro. Às vezes, fechava os olhos e imaginava que era ele quem ela abraçava, mas sua personalidade cética logo a obrigava a sacudir a cabeça e entender que ele nunca estaria ao seu lado. Nesse estágio, ela começava a chorar e, na tentativa de mudar a linha de seus pensamentos, lembrava da (ex) amiga.  Todas as burradas que fizera apresentavam-se como flashes em sua cabeça, cegando-a por segundos. Ela abraçava mais forte o travesseiro e soluçava, sacudindo a cabeça mais uma vez.

Aos poucos, o cansaço falava mais alto e ela respirava fundo, caindo em profundo sono. Enquanto sua mente desligava-se completamente do mundo real, ela esperava que o amanhã fosse melhor e até acreditava nisso – só que lá no fundo sabia que não era verdade.

Ontem ela se esqueceu do mundo.

23 dez

O relógio da igreja batia meia-noite e ela nem se importava, pois a festa mal havia começado. Os amigos estavam espalhados pelo clube, restando apenas um ao seu lado. A batida frenética da música eletrônica fazia-a mexer o corpo, mas não o suficiente para dançar; ela sempre teve vergonha de dançar.

Aos poucos, com a ajuda da bebida, ela se soltou e colocou-se a dançar com seus outros amigos, ou até com ninguém. A música eletrônica mudou para funk e, mesmo não gostando desse estilo, continuou na pista.

Com mais bebida e mais dança, logo ela se esqueceu de si mesma. Esqueceu-se de quem era, esqueceu-se do passado. Esqueceu-se de que deveria dosar a bebida. Esqueceu-se de que o amanhã ainda existiria, esqueceu-se de que iria lembrar.

Tuntz Tuntz Tuntz

Um garoto aparentando ter lá seus dezoito anos aproximou-se da garota e ela não o afastou. Deixou-o sussurrar em seu ouvido, deixou-o chegar mais e mais perto; mais uma vez, ela se esqueceu. Esqueceu-se de que nem tinha visto o rosto daquele cara. Esqueceu-se de que aquilo não era para sempre, esqueceu-se de que não o amava. Aproveitou da noite o melhor que podia e voltou para casa com um sorriso no rosto.

No dia seguinte, acordou, ligou para um amigo e, após desligar o telefone, andou até a cozinha. Estava radiante, nada podia acabar com sua felicidade…

Mas então ela lembrou.

Esqueci que nem tinha visto o rosto daquele cara.
Esqueci que não era pra sempre,
Esqueci que não o amava.

PowerPoint

27 nov

Primeiro slide: uma mulher de sorriso falso e cabelos castanhos que ultrapassavam sua cintura.

– Seu nome é Joana – ele disse olhando para o relógio. -, Joana do Cais. Tem 29 anos e mora na Bahia. Joana casou-se com José, mas ele a abandonou após três anos de casados, por causa de Paula. José contou para a cidade inteira que amava Paula, humilhando a pobre Joana.

Segundo slide: um homem baixo de bigode grande.

– José foi com Paula até São Paulo, onde a família da moça morava. Começou a trabalhar na feira todo santo dia para arcar com as despesas da cidade grande. Enquanto dava duro no expediente, Paula traia-o com Miguel, o vizinho. Ela contou para a cidade inteira que amava Miguel, humilhando o pobre José.

Terceiro slide: uma mulher loira muito bonita.

– Paula mudou-se para o outro lado da cidade para livrar-se de José e viver em paz com Miguel. Miguel era padeiro, padeiro de muito carisma, e logo ganhou freguesia. Um empresário da Bahia passou por sua padaria um dia e propôs uma filial em seu estado. Miguel aceitou de pronto e viajou com o empresário para a Bahia, deixando Paula triste com a ausência do parceiro.

Quarto slide: um homem jovem de olhos verdes.

– Miguel chegou na Bahia e contactou Joana, secretária do empresário. Joana agora tinha cabelos curtos e só sorria quando era de verdade. Miguel apaixonou-se por Joana em questão de dias, mas voltou para São Paulo para terminar com Paula e não espalhou que amava Joana para ninguém.

Quinto slide: FIM.

– Mas professor – perguntou o aluno. -, Joana não deveria ter abandonado Miguel como José abandonou-a e Paula abandonou José e Miguel abandonou Paula?

– Não sei, João. Mas fico feliz que ele não a tenha abandonado, essa é uma coisa muito ruim de se fazer – dizendo isso, o homem baixo de bigode grande saiu da sala.

Uma Noite

18 out

Talvez aquilo fosse um erro.

Ela sentia as mãos dele por seu corpo. As línguas entrelaçavam-se. A cama era macia. Ela deveria parar, mas não conseguia, não queria.

Ambos estavam ligeiramente bêbados, mas ela não se importava com isso nem com a grande possibilidade de ele não se lembrar de nada no dia seguinte. Só queria, por uma noite, sentir-se amada. Havia algum problema nisso? Não, ela pensava, é claro que não. Quando se vive num mundo de falsidade, brigas e bullying, não é pecado querer um pouco de felicidade. Uma felicidade passageira, sim, mas suficiente.

– Você é linda – ele murmurou dando beijos molhados no pescoço dela. Devia estar muito alterado.

– Não sou – ela disse num fio de voz, não sabendo ao certo se segurava lágrimas ou gemidos.

– Você é – Ele contemplou o rosto dela e ela quis se perder naqueles olhos azuis. – Nunca pense o contrário, você é.

Era estranho que ele estivesse sendo tão gentil;  era brincalhão e bobo, mas nunca atencioso. Ele tirou a camisa dela e a dele em questão de poucos segundos, e ela nem pensou em impedir.

– Se a gente t-transar – Agora era certeza, ela estava segurando lágrimas. -, v-você promete… você promete que não vai ser só isso?

– Claro que prometo – ele sussurrou novamente, porém não mais olhando para ela; estava muito ocupado tentando encontrar o fecho de seu sutiã.

Talvez ele estivesse mentindo ou não tivesse noção do que dizia. Talvez amanhã ele fosse olhá-la da mesma forma que a olhara nos dias anteriores. Talvez aquilo fosse um erro, mas era um erro dela e só dela. Um erro que seria sua lembrança de um amor correspondido, mesmo que só por uma noite.

._.

8 set

O certo é certo e o errado é errado, mas o certo pode se tornar errado e o errado pode se tornar certo.

Então, se o errado tornou-se certo, ele já não era certo desde o início?

Fiquei confusa.

Dia de Estudante

19 ago

Cama, escova, uniforme. Café, pão, manteiga. Mochila, apostila, caderno. Carro, rua, escola. Amigos, sinal. Escada, sala, carteira, professor, aula, sono. Caneta, corretivo, lápis, borracha, exercício. Aula, aula. Intervalo, lanche, banco. Classe. Horas. Fim. Amém.